28.10.09
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[11:31 PM]

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é isso aí,
bicho
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4.9.09
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[1:00 AM]

Amantes (Two Lovers, James Gray /2008)
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é isso aí,
bicho
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19.8.09
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[12:48 AM]
A previsão para o dia de folga era de tempo quente, término de um dos livros, três filmes no cinema e uma boa janta na mesa. Como já era de se esperar, todos os compromissos ficaram pela metade. Ainda vou me conformar com a decisão que meu organismo sempre toma, arbitrariamente, nos dias em que não trabalho, de deixar o corpo em repouso, fazendo o mínimo de esforço possível. O dia foi nublado, li os habituais 95% do livro e o joguei de lado, vi apenas um filme e terminei com um Miojo de galinha caipira no prato. Pelo menos isso. Nunca curti o de carne. E tenho comigo que, se nem o Miojo é bom, é porque as coisas não vão nada bem. Mas enfim.
Fui ver Se Nada Mais Der Certo, do José Eduardo Belmonte, que entrou em cartaz após dois anos de atraso. O cara também fez A Concepção, um filme que tratava do caos que permeia as ruas das metrópoles brasileiras e na reverberação desse caos sobre as pessoas. É sujo, intenso, com aquela câmera tremida que procura refletir o estado de espírito desgovernado de um ambiente que se despedaça lentamente. A abordagem dos dois filmes é semelhante, mas A Concepção é mais enxuto, com uma fluência de ritmo mais bem trabalhada.
O elemento central da narrativa que motiva a ação de vários personagens de ambos os filmes também é similar, e parece ser o principal ponto de discussão do cinema de Belmonte: a questão da perda de identidade. A Concepção era radical em sua proposta de demolição de uma sociedade civil vinculada às leis do sistema vigente, e propunha a criação de um meio de vida independente, desbundado e que fosse de encontro à moral cristã do Estado. O primeiro feito transgressivo rumo à liberdade individual era queimar a carteira de identidade.
Se Nada Mais Der Certo é mais maleável na proposta, embora todos os personagens sofram da mesma crise e seus atos sejam resultados diretos dessa turbulência interior. Não é à toa que a personagem de Carolina Abras, o andrógino Marcin, seja um ser de comportamento e visual indefinidos. Belmonte confere a essa conjuntura de busca desenfreada uma carga de tensão própria do submundo, onde a montagem dinâmica e entrecortada ajuda a minimizar a excessiva duração do filme. Podia ter fácil uns 20 minutos a menos. Mas a força com que amarra a relação entre seus personagens, perdidos numa selva de pedra fria e indiferente, verdadeira paulicéia desvairada, se sobressai e acaba soando como um aceno esperançoso para retratos tão destrutivos, prisioneiros de sucessivos fracassos e crescentes frustrações.
Belmonte avança outro passo em direção a um cinema que busca a verdade das ruas, negando artificialismos e se ancorando numa proposta verossímil de realidade objetiva. É uma forma de expressão que o cinema nacional atual insiste em negar ou tratar de forma derivativa, falsa, maquiada. Ainda que irregular, Belmonte começa a empregar consistência no projeto de cinema que vem delineando, incômodo e imperfeito, porém honesto.
Superior ao seu predecessor, Se Nada Mais Der Certo habita, juntamente com Moscou, o oásis de qualidade que se formou em meio ao deserto do nosso circuito ficcional em 2009. Possui a coragem e a pulsação que escapa ao peito dos demais cineastas brasileiros contemporâneos, afogados em meio a um mar de comodismos e soluções fáceis e esquecidos de que, para fazer cinema, é preciso estar sempre atento e forte.
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é isso aí,
bicho
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10.8.09
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[3:23 PM]
"Mas a nossa viagem era diferente. Era uma afirmação clássica de tudo que é correto, verdadeiro e decente no caráter nacional. Era uma saudação grosseira e material às possibilidades fantásticas da vida neste país - disponíveis apenas para quem realmente tem coragem. E isso nós tínhamos de sobra."
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bicho
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27.7.09
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[1:45 PM]
"Minha mãe sempre percebe quando não dormi em casa, e embora naturalmente não fale nada, pois seria absurdo se falasse, por um ou dois dias me olha entre ofendida e hesitante. Sei muito bem que jamais lhe ocorreria contar para Irma, mas de qualquer forma me aborrece a persistência de um direito materno que já não se justifica, e sobretudo que seja eu quem deva aparecer, no fim, com uma caixa de bombons ou uma planta para o pátio, e que o presente simbolize de forma muito precisa e subentendida o fim da ofensa, o retorno à vida diária do filho que ainda mora em casa da mãe." "Nunca entendi muito Cora, mas daquela vez bobeei mesmo. Na verdade, não me incomodo de não entender as mulheres, a única coisa que vale a pena é que elas gostem da gente. Se estão nervosas, fazem de tudo um problema, bem, mocinha, pronto, me dá um beijo e ponto final. Vê-se que ainda é novinha, vai demorar um bocado até que aprenda a viver nesta profissão maldita, a coitada apareceu esta noite com uma cara estranha e levei meia hora para fazê-la esquecer essas bobagens. Ainda não descobriu a maneira de tratar certos doentes, já aconteceu o mesmo com a velha do 22, mas eu supunha que, a partir de então, tinha aprendido alguma coisa, e agora esse menino vem lhe dar dor de cabeça. Ficamos tomando chimarrão no meu quarto e lá pelas duas da madrugada ela foi dar a injeção no menino, quando voltou estava de mau humor, não queria nada comigo. Fica-lhe bem essa carinha contrariada e tristonha, que aos poucos foi se modificando até que finalmente começou a rir e me contou suas aflições, nessas horas gosto tanto de despi-la e ver que treme um pouco como se sentisse frio."
O Outro Céu e A Sra. Cora , Julio Cortázar.
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é isso aí,
bicho
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22.7.09
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[3:30 AM]
- Você realmente roubou aquela coisa? Por quê?
- Eu precisava sair do chão.
A vida é cheia de som e fúria em Zabriskie Point, onde não há terno nem sobrenome e Antonioni pode ser visto baratinado, distribuindo zooms desnorteantes, ensandecidos, com o intuito de capturar o espírito de uma América igualmente atribulada. E aqui, por mais que apontem defeitos de lógica e insistam em cobrar coerência, é o espírito que me fascina: poucas vezes o cinema conseguiu ser tão rock’n’roll. As conseqüências da envergadura política da obra fazem com que se mantenha acesa a chama da transgressão, do combate, da explosão que existe dentro de cada jovem. É de se admirar que Antonioni tenha feito o filme aos 58 anos de idade, abandonando qualquer vestígio de senilidade ou conservadorismo que geralmente acomete pessoas com essa bagagem etária. Acho quase impossível falar de Zabriskie Point sem soar hiperbólico ou repetitivo, mas cada vez que o vejo (essa é a terceira - primeira com o áudio original em inglês e imagem cristalina), é como se a potência das imagens e do discurso acionasse uma descarga de energia e liberdade que me deixa com a cabeça fervendo, como se cada molécula do meu corpo estivesse numa dança descontrolada e feroz. O lugar representa o ponto geográfico mais baixo dos Estados Unidos da América, talvez por isso seja preciso alçar vôos estratosféricos, fugir de uma realidade sufocante e rarefeita para encontrar o sexo nas areias do deserto. A liberdade existe, ao longe, como uma velha lembrança, envolta por uma nuvem de poeira, bastante desgastada pela burocracia e por outras opressões sociais. O mundo é um caos, mas Antonioni nos convida a explodi-lo. E quando um poeta resolve fazer barulho, é obrigação do universo se calar para ouvi-lo.
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bicho
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21.7.09
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[8:01 PM]
A história é sensacional. Os protagonistas são Hélio Oiticica, Neville D'Almeida, Brasil, Nova York e um filme marginal de 1971 perdido por aí.
Vi no Daniel.
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bicho
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12.7.09
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[2:25 AM]
Decepcionante a segunda investida de Luiz Sérgio Person no gênero da comédia (a primeira, Panca de Valente, é pouco comentada e eu ainda não cheguei a assistir). Era natural que, após dirigir duas pedras fundamentais do cinema brasileiro em que a realidade de núcleos sociais urbanos e rurais ganha um verniz de ficção moderna, se criasse uma expectativa para aquela que é conhecida como sua “chanchada psicodélica”. Imaginei um desbunde visual, atrevido e insolente, tal qual a onda de libertação que varreu a juventude em fins dos anos 60. Mas Cassy Jones, o Magnífico Sedutor é tão inofensivo quanto um episódio de Malhação metido à besta.
Person opta pela caretice formalizada, mesmo com Sandra Bréa e Sônia Clara com os peitinhos de fora durante grande parte da projeção. Essa aparente afronta aos bons costumes (eram poucas as que tinham colhão para tirar o sutiã de frente para a câmera sob as olheiras dos censores) é anuviada por um texto que não se dispõe ao entrosamento com a proposta visual apresentada pelo cineasta: é ingênuo, sem problemática, com uma gordura de situações repetidas e inócuas típicas de um aspirante ao Domingos Oliveira de Edu, Coração de Ouro.
Se Sganzerla achou Macunaíma falso, provavelmente deve ter se revoltado com a plasticidade de Cassy Jones. E é sintomático que, a partir de um roteiro que se esquiva de riscos narrativos e outros saltos no escuro, a tentativa de soar moderno visualmente fracasse diante de uma escrita insípida e destemperada. Pena nunca ter encontrado nenhuma declaração do cara sobre esse Person, embora tenha feito elogios públicos a São Paulo S/A (também, como se atrever ao contrário?). Nem as duas melhores passagens do filme – quando Paulo José põe sua virilidade em questão num pesadelo em que o Maracanã lotado grita “Bicha!” para ele; e o diálogo inicial, “ – Mas o que é que você tem que as mulheres não tiram o olho? – É só uma questão de ângulo.”, que dá a falsa impressão de um roteiro esmerado – conseguem salvar o filme. Uma pena. Agora que já foram três, espero ao menos que Panca de Valente nos resgate e xeque mate.
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bicho
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9.7.09
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[4:13 AM]
BRIAN JONES

† 3 de Julho de 1969
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bicho
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2.7.09
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[2:40 AM]
Deu na telha de ler umas peças do Nelson Rodrigues esses dias, já que não encontrava o sujeito desde que ganhei meio grau de miopia. Aproveitei o ócio da labuta e A Falecida acabou caindo no meu colo. O teatro na verdade nunca foi a minha, tenho uma certa dificuldade em acompanhar os bambas da dramaturgia estrangeira e acabo tentando uma aproximação através do que foi feito em terras brasileiras - cujo auge se dá na escrita do Nelson. Só li quatro das dezessete peças do cara, mas para além da temática recorrente em seu estilo, que descortina pudores e pisa com força em certos valores, me fascina a capacidade de tratar das mais sórdidas manifestações humanas com a sofisticação textual de um poeta. Um denominador qualquer não suportaria a carga de ousadia pungente que escorre de suas palavras.
É a estética do choque. Jardim elétrico.
A Falecida é um texto onde a violência aparece como força propulsora dos atos dos personagens, subjugando-os a uma crueldade que se torna necessária para que conquistem seu espaço no mundo. Só que a violência não aparece em seu estado bruto, físico, e sim retrabalhada, através de atos implícitos, de falas grosseiras, de pernas cabeludas e de uma teta arrancada. A vulgaridade dos personagens revela um instinto de autodefesa que se constrói por meio do ataque - a velha máxima do futebol. Num país de cínicos, ganha quem for mais desbocado.
É então que a tragédia se anuncia - o título já pressupõe a morte -, mas a intensidade do texto vem é da sujeira congênita ao colóquio, onde os estados mais impuros da natureza humana se transfiguram e mostram que gosto bom é gosto de boca. Do lixo, de ouro, de lata, mas boca. É também uma peça triste, culpada, repleta de demônios com poder de destruição capazes de isolar um homem em pleno Maracanã lotado. O diálogo que capta o espírito do texto e sintetiza o desejo íntimo de Nelson é demais: PIMENTEL – Que é isso que você está chupando? ZULMIRA – Drops. PIMENTEL – Joga fora. ZULMIRA - Por quê? PIMENTEL – Porque eu vou te dar um beijo e quero sentir gosto de boca.
(solo de bateria)
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bicho
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30.6.09
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[2:59 AM]
O panorama do cinema francês terminou e eu dei mole em não rever Horas de Verão, de Olivier Assayas. Voltei a me entusiasmar com o cara depois de Boarding Gate, típico filme-vinil, de dois lados, onde uma história de amor e vingança entre Asia Argento e Michael Madsen desemboca num thriller frenético, de roupagem moderna, com experimentações de ângulos e cores que catalisam a ação do filme e garantem uma lufada de oxigênio no cinema de Assayas.
Horas de Verão não se propõe a tanto: é um filme tímido, sutil em seus detalhes, que esconde sob uma aparente despretensão uma vontade de abraçar o espectador e trazer o cinema para mais perto dele. Nesse sentido, dialoga diretamente com A Viagem do Balão Vermelho, o poema visual que Hou Hsiao-Hsien realizou sobre o cotidiano. Ambos são dois filmes difíceis de classificar, não se sujeitam a explicações fáceis e se recusam à limitação de síntese proposta por essas pobres linhas.
Está lá o cotidiano, o desenrolar de pequenas tarefas banais, os personagens que se cruzam como se estivéssemos ao seu alcance, táteis, conversando no banco da praça ou ao nosso lado, na esquina, enquanto o sinal não abre. Sem imposições, reduzindo o conflito ao máximo do minimalismo diário e habitual, somos convidados a observá-los, simplesmente, e deixar que a sucessão de suas atitudes e seus compromissos familiares e profissionais se encarreguem de alimentar nosso olhar ao longo da narrativa.
Tal qual Hsiao-Hsien, imagino que Assayas acredite, acima de tudo, na crueldade imposta pela solidão ao homem moderno, perdido no meio de uma avalanche tecnológica e cada vez mais distante de questões fundamentais e necessárias à sua posição (como, por exemplo, um questionamento sobre a função da arte hoje em dia). Fez, então, um filme para que possamos, mesmo que por um instante, devolver a nós mesmos o prazer de observar, pura e asceticamente, onde estamos. São filmes como esse que provam, por maiores que sejam nossas insistências em pensar o contrário, a certeza de Ozu: a rotina tem mesmo seu encanto.
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bicho
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26.6.09
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[2:04 AM]
O cara era foda. Um ícone, com todas as idiossincrasias próprias do termo: excêntrico, talentoso, controverso (black or white?), polemista, carismático, daqueles poucos sujeitos com capacidade de arrastar os olhos de uma multidão feito ímãs por onde passava, para o bem ou para o mal. Mesmo não sendo nascido quando sua carreira conhecia o apogeu, sempre curti o som de Michael Jackson, a pegada dançante, o suingue e a força com que suas músicas potencializavam a energia de qualquer pista de dança que se preze. Pelo menos enquanto era negão. Os discos de sua época de ouro (que vai do período Motown até o Bad) ainda rolam direto nas caixas daqui de casa, e todo mundo dança.
Não me recordo com muita precisão (quando exageram no meu copo de vodka desconheço o significado do termo), mas, segundo a Isadora, dancei um moonwalk alucinado no palco da Casa Rosa, ano passado, ao som de Billie Jean. Curto demais. Mesmo a galera que patrulha as atitudes do Michael, se armando de pedras e tomates quando seu nome surge em alguma conversa de boteco, arrisca alguns passos e balança o esqueleto quando um DJ tira Rock With You da manga, ressuscitando cadáveres e reavivando corpos inertes. De vícios estamos cheios, quiçá alagados, portanto não irei perder meu tempo discutindo e julgando as debilidades do Michael. Que era o cara. Ou pelo menos foi, soberano, durante muito tempo.
Morre Michael Jackson, o homem que levou a música pop ao seu mais alto grau de excelência, e fica seu legado, enorme, inestimável, que vai da revolução da dança coreografada e do videoclipe aos diretos sobre a obra dos Beatles. O dia de hoje legitimou o fim de uma era para a música e para a cultura pop. Mais uma parte da história se conclui, enterrando num passo para trás o tempo em que se faziam ídolos de proporções globais. Gostaria de acordar amanhã e me ver vítima do mais ousado golpe publicitário do século XXI, onde Michael ressurgiria mostrando seu poder e sua influência sobre o show business alegando que tal ato foi um misto de paranóia e estratégia para promover sua próxima turnê. Orson Welles aplaudiria de pé, charuto aprumado e copo duplo de uísque, diretamente das catacumbas do Inferno em que se hospeda. Michael saiu de cena com a mesma idade da ainda jovem Motown, gravadora que o lançou há quatro décadas, deixando como última obra a lenda que construiu sobre si. Rockin’ Robin, the beat goes on! I Want You Back continuará rolando madrugadas afora, sempre quente...
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é isso aí,
bicho
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18.6.09
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[2:41 AM]
Eis a dúvida: como fazer uma reportagem sobre um dos mestres da reportagem? Uma matéria da Veja dessa semana mostrou que sinapses ainda acontecem dentro da redação da revista ao ceder a palavra a Gay Talese, fera do jornalismo norte americano, e deixar que sua eloquência e lucidez norteassem os rumos do papo que gerou o artigo publicado na edição. Sempre pensei que a Veja fosse comandada por robôs políticos dissidentes da Gestapo com sérios problemas em relação ao que acontece no território brasileiro - nesse caso, me enganei. Ou então me enganaram, latarias malditas.
O fato é que vale a pena partilhar a perspicácia da fala de Talese, que atenta para pontos importantes a respeito do posicionamento da imprensa diante dos problemas da sociedade, do governo e do surgimento de novas mídias. Por isso, vai reproduzida aí embaixo, na íntegra, a matéria que a Veja fez sobre o cara. Nesses tempos em que o diploma não é mais exigido e que o jornalismo se mostra cada vez mais asséptico, chega a ser um alívio ler o conteúdo de linhas como essas:  "A imprensa americana caiu na lorota de que havia armas de destruição em massa no Iraque por algumas razões. Primeira: os atentados de 11 de setembro criaram um clima de espanto. Uma coisa é falar de guerra lá longe, na Normandia, no norte da África, falar do general Erwin Rommel, de Mussolini, Hitler. Outra é sofrer hostilidades de forças estrangeiras dentro de Nova York. Era inacreditável, e George W. Bush capitalizou isso. Ganhou enorme poder. Era o nosso defensor contra futuros ataques e o árbitro sobre o que era bom para nós. Fomos induzidos a acreditar que o governo tinha informações que nem o público nem o Congresso conheciam. A imprensa, muito crédula e um pouco ingênua, entrou no clima. Segunda razão: havia um fervor patriótico. A imprensa se sustenta com publicidade, e o pessoal tinha receio de ser percebido como antipatriótico – o que naqueles dias era o mesmo que ser anti-Bush – e acabar financeiramente punido, com os anunciantes debandando. O comediante Bill Maher fez uma brincadeira em seu programa na rede ABC, dizendo que os terroristas podiam ser chamados de tudo, menos de covardes, e foi retirado do ar. Essa atmosfera durou uns dois anos. Terceira: os jornais, Washington Post, The New York Times, efetivamente acreditavam no governo, e, por último, os repórteres que cobriam Washington eram muito diferentes dos repórteres do meu tempo, que cobriram a Guerra do Vietnã nos anos 60. Não eram céticos."
"Os repórteres que estavam em Washington em 2002 não tinham o ceticismo, o estranhamento necessário. Foram educados nas mesmas escolas que o pessoal do governo. Eles vão às mesmas festas que o pessoal do governo. Seus filhos frequentam as mesmas escolas. Todos nadam na mesma piscina, pertencem ao mesmo clube de golfe, vão aos mesmos coquetéis. São repórteres prontos para acreditar no governo. É assim hoje, e era assim em 2002. Os repórteres estavam prontos para acreditar no governo sem pedir provas, evidências, nada. Por pouco, não acusaram Saddam Hussein de ter patrocinado os atentados de 2001. Eram como um bando de pombos para os quais o governo jogava milho. Os repórteres de hoje cobrem a guerra dentro dos tanques das tropas americanas. É ridículo. Um repórter deve prestar contas ao seu jornal, e não ao coronel que está protegendo a sua vida. Num evento público, eu me encontrei com o Arthur Ochs Sulzberger, que hoje dirige o Times, e disse a ele que isso estava errado, que repórteres não podiam trabalhar com militares, mas ele acha que estava certo. Na minha geração, éramos diferentes, éramos de fora, como estrangeiros. Podíamos ter nascido nos EUA, nossos pais podiam ter ido à universidade, mas ainda assim nos sentíamos como estrangeiros. Éramos todos de classe social mais baixa. Éramos judeus, irlandeses, italianos, alguns eram negros. Minha geração não era composta de anglo-saxões que estudaram em Harvard, Yale ou Princeton, que formavam e ainda formam a gente que vai trabalhar no governo ou em Wall Street. No meu tempo, James Reston (1909-1995) era chefe da sucursal do Times em Washington. Reston nasceu na Escócia, mas tinha muito orgulho dos Estados Unidos. Abe Rosenthal (1922-2006) era judeu, nascido no Canadá, seu pai era da Rússia. Meu amigo e o melhor repórter da minha geração, David Halberstam (1934-2007), era judeu, seu pai era um médico militar. Halberstam tinha um senso crítico, um ceticismo notável a respeito deste país. Harrison Salisbury (1908-1993) cobriu a II Guerra e, nos anos 50, foi à União Soviética quando Stalin estava no poder. Salisbury não acreditava em nada. Não acreditava em Stalin, nem em Dwight Eisenhower. Salisbury era como todos nós, de fora. No Vietnã, Salisbury foi para Hanói antes dos soldados americanos para pegar histórias do outro lado. Se Halberstam ou Salisbury estivessem vivos e trabalhando em jornalismo, jamais teriam comprado essa lorota do Iraque. O Times não teria tratado como informação o que era apenas desinformação e propaganda."
"O governo usa a imprensa mais do que a imprensa usa o governo. Hoje, devemos ter uns 10.000 repórteres em Washington. Há uma civilização inteira de jornalistas em Washington. Se eu dirigisse um jornal, eliminaria de 50% a 60% da sucursal de Washington e mandaria os repórteres para outros lugares do país, para Califórnia, Nebraska, Flórida. Sabe o que aconteceria? Estaríamos tirando a ênfase sobre o governo e neutralizando sua capacidade de controlar o discurso político. Em vez de ficarmos segurando o microfone para o governo falar, estaríamos trazendo notícia sobre como as decisões do governo são percebidas e como são sentidas longe de Washington. Isso é vida real. É cobrir os efeitos das medidas do governo sobre a economia, a gripe suína, seja o que for, mas longe do governo e perto da sociedade. A multidão em Washington decorre do fato de que as pessoas adoram o poder e ficaram preguiçosas. Jornalista ama o poder, ama lidar com o poder."
"Com as novas tecnologias, e sobretudo com a criação da internet, o público hoje é informado de modo mais estreito, mais direcionado. Na internet, os jovens se informam de modo muito objetivo, no mau sentido. Eles têm uma pergunta na cabeça, vão ao Google, pedem a resposta, e pronto. Estão informados sobre o que queriam, mas é um modo linear de pensar e ser informado, que não dá chance ao acaso. Quem está interessado em saber sobre o presidente do Paquistão vai à internet, fica sabendo que ele andou visitando Washington, quem é o seu principal oponente, essas coisas. Quem lê um jornal impresso lê sobre tudo isso e depois, ao virar a página, lê sobre a mulher do Silvio Berlusconi, depois sobre as chinesas que perderam seus filhos naquele terremoto, depois sobre o desastre do Air France que saiu do Rio para Paris. Enfim, lê histórias que não procurou e, por isso, acaba adquirindo um sentido mais amplo do mundo. Claro que você também pode fazer isso na internet, mas o apelo da internet é o oposto. É oferecer informação rápida. A internet é o fast-food da informação. É feita para quem quer atalho, poupar tempo, conclusões rápidas, prontas e empacotadas. Quem se informa pela internet, de modo assim estreito e limitado, pode ser muito bem-sucedido, ganhar muito dinheiro, mas não terá uma visão ampla do mundo. Para piorar, surgiram esses blogs com blogueiros desqualificados, que apenas divulgam fofoca. São como uma torcida num jogo de futebol que fica o tempo todo gritando para os jogadores, para o juiz. É gente que não apura nada, só faz barulho."
"O politicamente correto é um veneno para o jornalismo. Em 2006, aconteceu um caso exemplar. Na Carolina do Norte, uma mulher foi contratada para dançar numa festa dos jogadores do time de lacrosse da Universidade Duke e disse que bebeu demais e acabou estuprada por três jogadores. O caso ganhou as primeiras páginas. Os jornais nunca publicaram o nome da moça, e divulgaram fartamente o nome dos rapazes acusados do estupro. Ela era negra. Eles eram brancos. No fim, descobriu-se que ela era uma mentirosa. Os jornais, o Times inclusive, protegeram a mentirosa e expuseram os inocentes. Por que o Times fez isso? Porque queria ser sensível à situação de uma afro-americana. Jayson Blair, que publicou várias mentiras como repórter do Times, é outro exemplo. Ele foi contratado porque o jornal queria ter mais representantes das minorias, e Blair era negro. Foi contratado por Gerald Boyd, o primeiro negro a chefiar a redação do Times. Acima dele estava apenas o diretor de redação, Howell Raines, um branco do sul. Boyd e Raines queriam ser politicamente corretos e contrataram Blair porque era negro. E, porque era negro, faziam vistas grossas para os seus erros, deixavam passar, até que a coisa estourou. Só foram tolerantes com os erros de Blair porque queriam ser politicamente corretos. No jornalismo, isso não funciona. O jornalismo tem de ser vigilante, justo, realista, disciplinado, e não se preocupar em ser ou parecer politicamente correto."
"A crise dos jornais americanos não é uma crise do jornalismo americano. Moro em Nova York há cinquenta anos. Já vi muitos jornais fecharem as portas. Nos anos 60, acabou o The New York Herald Tribune, que era um grande jornal, mas grande mesmo. Antes, fechou o tabloide New York Daily Mirror. Eu cresci lendo revistas como Life, Saturday Evening Post, Look, e nenhuma delas existe mais. Em Nova York havia quinze jornais. Quando cheguei aqui, em 1959, eram sete. As pessoas esquecem que os jornais vão e vêm. O jornalismo, não. As pessoas vão sempre precisar de notícia e informação. Sem informação não se administra um negócio, não se vende ingresso para o teatro, não se divulga uma política externa. Todos os dias, nos jornais das cidades grandes ou pequenas, repórteres vão à rua para fazer o que não é feito por mais ninguém. De todas as profissões, se um jovem estiver interessado em honestidade e não estiver interessado em ganhar muito dinheiro, eu aconselharia o jornalismo, que lida com a verdade e tenta disseminar a verdade. Há mentirosos em todas as profissões, inclusive no jornalismo, mas nós não os protegemos. Os militares acobertam mentirosos. Os políticos, os partidos, o governo, todos fazem isso. O escândalo do Watergate é uma crônica de acobertamento. Os jornalistas não agem assim, não toleram o mentiroso entre eles. Acho uma profissão honrosa, honesta. Tenho orgulho de ser jornalista."
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7.6.09
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[4:56 AM]

 MASCULIN FÉMININ: 15 faits précis 1966 Jean-Luc Godard
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30.5.09
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[10:32 PM]
Cannes 2009: O júri é muito simpático mas é incompetente. Prêmio especial para Resnais? Palma de Ouro para Haneke? Muita marmelada. De longe, aqui do Brasil, recebendo os filmes através das linhas de cobertura feitas por algumas pessoas bacanas, não duvido que os melhores tenham sido premiados. Festival é assim mesmo, nem sempre o que a gente quer acontece. Em Cannes, então, com um nível de exigência do mais alto grau, não esperava decisão diferente de um júri capitaneado por Isabelle Huppert. A identificação artística com Haneke fez com que o diretor já entrasse em campo com uma vantagem em relação aos outros concorrentes. E dizem (o Merten, pelo menos) que A Fita Branca é mesmo o melhor filme do cara. Vamos esperar pelo Festival do Rio, então, para comprovar essa decisão que carrega uma leve pontada de nepotismo, se os deuses da boa vontade não tomarem a palavra por seu significado literal. Mesmo assim, fica um gosto de caroço de feijão na boca.
Gosto bastante do Haneke. Seu cinema me provoca, vez em quando cospe umas verdades sujas na minha cara a fim de cobrar uma reação por isso. Na maioria dos casos não usa palavras para deflagrar os terremotos sociais que seus filmes sugerem – é um cineasta de situações, de gestos e movimentos, onde o conflito da narrativa é instaurado a partir de resoluções visuais que dispensam suplemento textual. E essas resoluções, secas e pontuais, com o plano aberto e quase sempre imóvel, revelam conceitos e problemas da sociedade contemporânea com uma urgência quase documental.
Os primeiros minutos de Código Desconhecido, por exemplo. Um impressionante plano-sequência iniciado com um diálogo amistoso desemboca num confronto físico entre dois jovens no qual se misturam a questão racial, a posição social dos envolvidos e o abuso de poder das autoridades. Quase 10 minutos de imersão numa atmosfera sufocante que marca o tom de todo o cinema de Haneke. Em seu pensamento, só a tensão entre pólos opostos é capaz de sugerir a reflexão.
Nesse ambiente de frieza e impessoalidade, o que mais me atrai é o modo do diretor de captar o cenário em que ambienta seu rol de manipulações e sadismos. Mais do que a encenação do incômodo, de percepção do estado das coisas entre os homens, gosto do modo com que Haneke filma as ruas, os ambientes internos, as fachadas das casas, limpas, vivas, repletas de elementos díspares resultantes da globalização coexistindo aparentemente em harmonia (tema recorrente dos filmes do sujeito), mas cujas estruturas abrigam e disfarçam doenças sociais e valores corroídos, instintivamente primitivos, mostrando um descompasso nítido entre os avanços materiais e humanos do que se convencionou chamar de pós-modernidade.
É um discurso radical, complexo, que toca em várias feridas e expõe as chagas sem apresentar contra-propostas. Do ponto de vista sociológico, Haneke é um bom cineasta. Sua visão de mundo expressa um olhar cruel e seus métodos de abordagem são até discutíveis, mas depois de Código Desconhecido não me resta dúvida de que, se é realmente apenas isso o que ele sabe fazer (como diz um suposto alter ego do diretor no filme), que continue a explorar o cinema e a violência através desse viés. Na falta dos verborrágicos, o mundo precisa de polemistas visuais para alimentar suas discussões. Pois quem não se comunica se estrumbica, já dizia o bandido.
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bicho
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25.5.09
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[1:31 AM]
eu quando olho nos olhos sei quando uma pessoa está por dentro ou está por fora
quem está por fora não segura um olhar que demora
de dentro de meu centro este poema me olha
Paulo Leminski
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bicho
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24.5.09
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[5:25 AM]

No 1º ano do ensino médio, a escola em que eu estudava promoveu um debate no auditório lembrando o aniversário de meio século do suicídio de Getúlio Vargas. Foram colocados frente a frente dois grupos, cada um com umas cinco ou seis pessoas, que tinham opiniões divergentes acerca das intenções políticas do presidente. Uns o acusavam de fascista, outros exaltavam o avanço progressista de suas reformas. Eu fiquei na plateia, jogando bolinha de papel no palco e indeciso quanto ao lado em que me alinhava. Em cima do muro, tal qual o próprio Vargas ficou em diversos momentos de sua trajetória. Lembro que a Jana defendeu com unhas e dentes o presidente do povo, pai dos pobres, dos direitos trabalhistas, da Petrobras etc. Coisa de quem cresceu e foi educado sob a estrela da esquerda.
A verdade é que o período ditatorial de Vargas, o Estado Novo, continua sendo um capítulo nebuloso da nossa história. O que se relata nos livros é o lado burocrático da época, com a enumeração das características comuns a um governo despótico, deixando de lado episódios que evidenciam a perversidade do período. A censura obstrui o acesso à verdade, e hoje Vargas é visto como um herói para o povo brasileiro. Um dos presidentes mais populares que o Brasil já teve. O mesmo que dificultou as coisas para Orson Welles quando este veio para cá, em meados da década de 40. O mesmo que praticava torturas e coações, espancando civis e legitimando sua soberania através da violência e da intimidação.
Essa aulinha tosca de História aí em cima se justifica porque acabei de assistir a O Caso dos Irmãos Naves, filme de Luiz Sérgio Person que relata a história de dois irmãos injustamente acusados, violentados e encarcerados por mais de oito anos pelo governo Vargas. Em Araguari, cidade do interior de Minas, no final de 1937. A quebra da bolsa norte-americana ecoava nas plantações e nos estoques de café, o fascismo ganhava força e influenciava diretamente a Polaca, nossa quarta constituição. O filme se apóia nesses fatos para relatar, com uma secura quase documental, os trâmites judiciários e políticos que regeram o caso. De ritmo ágil, ancorado pelos diálogos concisos do roteiro escrito por Person em parceria com Jean-Claude Bernadet, existe no filme um movimento pendular que oscila entre o cinema policial, o drama familiar e o filme de tribunal, onde o jogo de moralidade e as relações de poder aproximam-no de uma realidade pretendida e explorada com uma agressividade que acaba por impedir sua classificação dentro de qualquer um dos três gêneros.
Se já havia demonstrado um senso estético vigoroso e cerebral em São Paulo S/A, com planos estudados em minúcia e um raciocínio de espaço que privilegia a relação (nem sempre harmoniosa) entre homem e ambiente, Person usa movimentos discretos de travelling e zoom neste filme como que para suavizar a tensão do texto, criando, a partir dessas flexibilizações de plano, espaços de respiração, de atenuação. O uso de profundidade é explorado em diversos momentos, como nas sequências da delegacia, onde um quadro de Vargas exposto na parede ao fundo é fotografado de modo a ressaltar sua patrulha da ação, uma espécie de controle absoluto de tudo que ali se passa. São toques de quem sabe o que faz e assume os riscos dessa postura. É bom lembrar que O Caso dos Irmãos Naves foi lançado em 1967, durante os primeiros anos da nossa segunda ditadura e, até onde sei, não sofreu nenhum tipo de represália por parte dos censores. Não quiseram se envolver novamente naquele que é considerado o maior erro do judiciário brasileiro.
Duas sequências são emblemáticas: as de tortura no campo, onde a câmera treme nervosamente a fim de ressaltar a violência que cai sobre os dois irmãos, com a luz sendo filtrada pelos galhos das árvores criando uma sensação cruel de desconforto e paradoxo (como um dia iluminado e bucólico permite tal atrocidade?); e uma no tribunal, essa das fotos aí em cima, onde os irmãos confessam para o júri que são inocentes, e que apanharam e foram torturados pela polícia local para dizer a verdade, posicionados de frente para a câmera, no meio da tela, com os habitantes da cidade preenchendo o campo ao fundo, fora de foco, indiscretamente passivos. De arrepiar.
Person elevou o cinema brasileiro às maiores potências da criação artística em sua curta carreira. Os dois filmes citados aqui são provas incontestes de sua capacidade de filtrar uma realidade e conciliar questões problemáticas inerentes à sua condição com um controle técnico que poucos conseguiram alcançar. Não é todo dia que se encontram filmes desse tamanho no cinema brasileiro. Grandes, imensos. Maiores do que qualquer coisa que se possa escrever sobre eles.
O Caso dos Irmãos Naves (Luiz Sérgio Person, 1967)
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é isso aí,
bicho
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21.5.09
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[1:22 AM]
Comprei um caderno, abri um Twitter e continuo com o blog. Mas e a preguiça de escrever? Articulo ideias e mais ideias no ônibus, indo para o trabalho, mas quando tento reproduzi-las no papel a terra treme. Meu negócio é com imagem mesmo, não tem jeito...
Li duas novelinhas do Joseph Conrad essa semana: Juventude e O Coração das Trevas. O Coppola fez uma leitura bastante fiel do livro, mesmo alterando algumas passagens e inserindo outras muito bem sacadas (toda a sequência do surfe com o Robert Duvall, por exemplo). Manteve, no entanto, o clima de paranóia e tensão que perpassa a narrativa, conservando a excitação causada pelo contato com o desconhecido e intensificando a crise de identidade dos personagens, colocando a sanidade mental à prova diante do primitivismo indiferente da natureza. A cena em que o Martin Sheen emerge das águas, já no desfecho de Apocalypse Now, mostra o domínio cênico do Coppola e como ele soube, a partir do texto do Conrad, elevar uma passagem pálida e insignificante do livro a uma sofisticada e emblemática sequência de suspense.
Outro que bebeu na fonte do escritor polonês foi Herzog. Aguirre vem daí, dessas trevas. Achei estranho o fato de nunca ter lido nada a respeito desse paralelo, cuja gênese é bastante similar. O que muda, no caso, é o ponto de vista. Se no filme do Coppola eles vão até Kurtz, Herzog antecipa sua ação e encena o momento em que Kurtz descobriu as trevas. Ou se descobriu através delas, vai saber.
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